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Por que todos, todas, todes?


A Língua Portuguesa surgiu a partir do latim vulgar, uma versão menos estilizada e complexa do latim clássico usado pela alta sociedade. Por volta do século III a.C os romanos tomaram a Península Ibérica e estabeleceram seus hábitos, cultura e costumes, assim como o seu idioma. Junto com o Português, outras línguas neolatinas, ou românicas, surgiram pelo continente europeu. Este é o caso do Espanhol, Italiano, Catalão e Francês. 


Nesses 24 séculos de formação a Língua Portuguesa foi sofrendo alterações, sendo influenciada pelo idioma dos países que cercavam Portugal, pelo evento histórico das randes. Navegações e as fortes influências Árabes que surgiram com a expansão do comércio. O português desembarca nas terras da América em 1500. A mistura de povos, dialetos e cultura modifica não somente a língua portuguesa, como também o modo de viver da sociedade que aqui existia, e se formava..  


Hoje, em um mundo globalizado, a Língua Portuguesa continua dinâmica e em constante evolução, sofrendo acréscimos ou supressões de ordem morfológica, sintática e fonológica. Empréstimos linguísticos são feitos, neologismos criados e a língua acompanha as mudanças da sociedade.  


Gramaticalmente, o neutro na Língua Portuguesa é o masculino, uma regra que é resultado de séculos de uma construção patriarcal baseada no fato de que quem representava e se fazia presente era o homem (um assunto para ser continuado outro dia).  


Então quando falamos “Boa noite a todos” estamos englobando a totalidade de pessoas ali presentes dentro dos parâmetros da Língua Portuguesa clássica, gramatical e presa aos livros didáticos. Porém, falar “boa noite a todos, a todas e a todes” não é somente uma questão gramatical e sim simbólica.  


Quando se endereça a palavra a “todos, todas e todes” uma inclusão simbólica é estabelecida. Falar todas é chamar mais de 51% da população brasileira para participar da discussão do direcionamento de uma nação. Convidar todes é também incluir quem não se encaixa no padrão binário do masculino e feminino.  É preciso abstrair da regra gramatical para compreender o simbolismo presente neste ato. O destaque aqui está para o simbólico, principalmente da inclusão de classes e categorias que historicamente são apagadas. 


A língua viva é dinâmica e capaz de mudança, de adaptação, de crescimento e inclusão. A Língua Portuguesa deve refletir a sociedade que a utiliza, em especial para atender a diversidade que se faz cada vez mais presente. 

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Autor: Conrado Rocha Pereira

Psicólogo CRP 09/15567

Formado em psicologia com ênfase na clínica psicanalítica lacaniana e estudos em sexualidade e gênero.@psiconradorocha


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