Será que isso é violência?
- Maria Laura Fiovarante
- há 4 dias
- 6 min de leitura
Nem toda violência deixa marcas visíveis.
Algumas acontecem por meio de palavras, ameaças, manipulações, controle e comportamentos que, pouco a pouco, fazem uma mulher duvidar de si mesma, afastar-se de pessoas importantes e perder a confiança nas próprias decisões.
É sobre essa forma de violência que o Agosto Lilás também nos convida a falar: a violência psicológica contra a mulher.
A campanha Agosto Lilás é dedicada à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher e está relacionada ao aniversário da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), sancionada em 7 de agosto de 2006. Em 2026, a legislação completa 20 anos.
O que é violência psicológica contra a mulher?
De acordo com a Lei Maria da Penha, a violência psicológica envolve comportamentos que podem causar dano emocional, diminuir a autoestima ou buscar degradar e controlar as ações, comportamentos, crenças e decisões da mulher.
A legislação inclui situações como ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição, insultos, chantagem, violação da intimidade, ridicularização e limitação do direito de ir e vir.
Na prática, isso significa que violência psicológica não é apenas “uma discussão de casal”.
Ela pode aparecer em padrões de comportamento que fazem a mulher sentir medo, culpa, insegurança ou necessidade constante de justificar suas escolhas.
Quais são os sinais de violência psicológica?
Algumas situações podem parecer pequenas quando observadas isoladamente. O problema está justamente na repetição e no padrão de controle que pode se estabelecer.
Frases como:
“Você não serve para nada. Se não fosse por mim, ninguém iria querer ficar com você.”
“Se você me deixar, vai se arrepender.”
“Eu não estou te proibindo de sair. Só acho que você deveria pensar no que eu vou achar das suas amizades.”
“Eu só gritei porque você me provocou.”
“Você está exagerando. Isso nunca aconteceu desse jeito.”
Podem fazer parte de uma dinâmica de violência quando utilizadas de maneira recorrente para humilhar, intimidar, controlar ou invalidar a mulher.
O contexto importa. Uma frase isolada não deve ser usada, por si só, para definir uma relação como abusiva. É importante observar a frequência, a intenção, o padrão de comportamento e os efeitos que aquela dinâmica produz na vida da mulher.
Controle também pode ser violência
A violência psicológica pode aparecer de maneiras que, socialmente, são confundidas com demonstrações de amor ou cuidado.
Ciúmes excessivos, controle das amizades, das roupas, da rotina, do dinheiro, do celular e dos lugares frequentados podem fazer parte de uma dinâmica de controle.
Quando a mulher começa a modificar seu comportamento para evitar uma reação do parceiro, deixa de fazer coisas que gostaria por medo de conflitos ou sente que precisa pedir autorização para tomar decisões sobre a própria vida, é importante olhar para essa relação com atenção.
A violência psicológica também pode envolver isolamento. Aos poucos, a mulher pode se afastar de familiares, amigos e outras pessoas importantes, tornando sua rede de apoio cada vez menor.
O que é gaslighting?
Outro fenômeno frequentemente associado ao abuso psicológico é o chamado gaslighting.
O termo é utilizado para descrever situações de manipulação nas quais uma pessoa tenta fazer com que a outra duvide da própria percepção, memória, sentimentos ou julgamento.
Frases como:
“Você está imaginando coisas.”
“Isso nunca aconteceu.”
“Você está ficando louca.”
“Você sempre entende tudo errado.”
podem aparecer nesse tipo de dinâmica.
O efeito pode ser devastador: com o tempo, a pessoa pode começar a desconfiar de si mesma e acreditar que é responsável pelos conflitos ou que suas próprias percepções não são confiáveis.
É importante lembrar que o gaslighting não acontece apenas em relacionamentos amorosos. Dinâmicas de manipulação e invalidação podem aparecer em diferentes contextos, como relações familiares, profissionais e acadêmicas.
A violência psicológica pode acontecer antes da violência física?
A violência psicológica pode fazer parte de um ciclo de violência e, em alguns casos, anteceder ou acompanhar outras formas de agressão.
Por isso, minimizar comportamentos de controle, ameaça ou intimidação pode dificultar a percepção de que existe uma situação de violência.
A violência doméstica e familiar pode assumir diferentes formas, incluindo violência física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. A legislação brasileira também passou a reconhecer, em 2026, a violência vicária como uma forma específica de violência doméstica e familiar contra a mulher.
Isso reforça a importância de olhar para a violência de maneira ampla, e não apenas quando existe uma agressão física evidente.
Violência psicológica é crime?
Sim.
O artigo 147-B do Código Penal estabelece como crime causar dano emocional à mulher que prejudique ou perturbe seu pleno desenvolvimento ou que busque degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões por meios como ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, chantagem, ridicularização ou limitação do direito de ir e vir.
A pena prevista é de reclusão de seis meses a dois anos e multa, quando a conduta não constitui crime mais grave. Desde 2025, a pena é aumentada de metade quando o crime é cometido com uso de inteligência artificial ou outro recurso tecnológico que altere imagem ou som da vítima.
Quais podem ser os impactos da violência psicológica?
Viver em uma relação marcada por medo, controle e desvalorização pode afetar profundamente a saúde emocional.
A mulher pode começar a apresentar:
ansiedade;
baixa autoestima;
insegurança;
sentimento constante de culpa;
isolamento social;
crises de pânico;
sintomas de estresse;
depressão;
dificuldades para tomar decisões;
medo constante da reação do parceiro.
Esses efeitos não significam que todas as mulheres apresentarão os mesmos sintomas. Cada pessoa vivencia a violência de uma maneira e pode reagir de diferentes formas.
Por isso, o acolhimento sem julgamento é tão importante.
Como a rede de apoio pode ajudar?
Reconhecer uma situação de violência pode ser difícil. E sair dela também pode envolver obstáculos emocionais, financeiros, familiares e sociais.
Nesse processo, a rede de apoio pode ter um papel fundamental.
Uma amiga, familiar, colega de trabalho ou outra pessoa de confiança pode oferecer escuta, companhia, informação e suporte para que a mulher não precise enfrentar a situação isoladamente.
Mais do que dizer simplesmente “é só terminar”, é importante escutar sem julgamento, respeitar o tempo da mulher e ajudá-la a encontrar caminhos seguros.
O próprio Ministério das Mulheres reforça a importância de redes de apoio e de uma escuta que não minimize o sofrimento da mulher.
A psicoterapia pode ajudar?
A psicoterapia pode ser um espaço de acolhimento para mulheres que estão vivendo ou viveram situações de violência psicológica.
O acompanhamento psicológico não substitui os serviços de proteção ou as medidas legais necessárias, mas pode contribuir para que a mulher compreenda o que está sentindo, reconheça padrões de violência, fortaleça sua autoestima e encontre recursos emocionais para lidar com a situação.
Cada história precisa ser acolhida de maneira individual.
Por isso, não existe uma única forma correta de reagir ou um único momento certo para pedir ajuda.
Onde buscar ajuda?
Se você ou alguém que conhece está vivendo uma situação de violência contra a mulher, existem serviços que podem orientar e encaminhar para a rede de proteção.
O Ligue 180, do Ministério das Mulheres, funciona gratuitamente 24 horas por dia e oferece informações sobre direitos, serviços especializados e canais de atendimento, além de registrar e encaminhar denúncias. O serviço também está disponível pelo WhatsApp (61) 9610-0180.
Em situações de emergência ou risco imediato, deve-se acionar a Polícia Militar pelo 190.
Reconhecer também é uma forma de proteção
A violência psicológica pode ser silenciosa. Pode aparecer disfarçada de ciúme, cuidado, preocupação ou “briga de casal”.
Mas quando existe um padrão de humilhação, ameaça, manipulação, medo e controle, é importante olhar para essa situação com atenção.
Reconhecer a violência é um primeiro passo. Pedir ajuda é outro. E ninguém precisa atravessar esse caminho sozinha.
Neste Agosto Lilás, falar sobre violência psicológica também é uma forma de ampliar informação, fortalecer redes de apoio e lembrar que saúde emocional e segurança caminham juntas.
Se essa informação fez sentido para você ou para alguém que conhece, compartilhe. Informação também pode ser uma forma de cuidado.
Referências
BRASIL. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006 — Lei Maria da Penha.
BRASIL. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 — Código Penal, art. 147-B.
BRASIL. Lei nº 15.123, de 24 de abril de 2025 — alteração do art. 147-B do Código Penal.
Dos Reis, G.; Cúnico, S. D. (2024). A violência psicológica sob a perspectiva de mulheres que sofreram violência. Psicologia Argumento.
Moreira, J. L. D. F. M.; Oliveira, P. G. (2023). Gaslighting como violência psicológica: compreendendo o fenômeno sob a ótica da Análise do Comportamento.
Silva, L. L. D.; Coelho, E. B. S.; Caponi, S. N. C. D. (2007). Violência silenciosa: violência psicológica como condição da violência física doméstica. Interface — Comunicação, Saúde, Educação.
de Queiroz, R. A.; Cunha, T. A. R. (2018). A violência psicológica sofrida pelas mulheres: invisibilidade e memória. Revista NUPEM.
de Sousa Clementino, A. K. et al. (2024). A importância da rede de apoio para a vítima de violência doméstica no âmbito familiar e estatal.
Autora:
Psicóloga Maria Laura Fiovarante
CRP: 09/22425




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