O desenvolvimento humano também acontece em meio às crises
O desenvolvimento humano também acontece em meio às crises
Quando pensamos em desenvolvimento humano, é comum imaginarmos uma trajetória linear. Crescemos, aprendemos, amadurecemos e, pouco a pouco, vamos adquirindo novas capacidades. Como se cada etapa simplesmente conduzisse à seguinte, de maneira progressiva e tranquila.
Mas será que o desenvolvimento acontece assim?
Basta observar uma criança aprendendo a andar para perceber que não.
Aprender a andar envolve esforço, desequilíbrio, tentativas e quedas. A criança se levanta, tenta novamente, cai outra vez e, aos poucos, encontra novas possibilidades para se movimentar e se relacionar com o espaço ao seu redor. É um processo difícil e, algumas vezes, até doloroso.
E nós costumamos compreender essas dificuldades como parte do desenvolvimento. Curiosamente, essa mesma compreensão nem sempre é aplicada quando pensamos no desenvolvimento psicológico, especialmente na vida adulta.
O desenvolvimento não é linear
Na perspectiva histórico-cultural de Lev Vigotski, o desenvolvimento humano não acontece de maneira contínua e homogênea. Ele envolve períodos de maior estabilidade, mas também momentos de ruptura, transformação e crise.
A palavra “crise”, nesse contexto, não deve ser entendida necessariamente como algo patológico ou como sinal de que o desenvolvimento deu errado.
A crise pode fazer parte do próprio processo de transformação.
Isso acontece porque, ao longo da vida, as pessoas não apenas crescem biologicamente. Elas também transformam sua maneira de pensar, sentir, agir e se relacionar com o mundo.
Na infância, muitas dessas transformações aparecem de maneira bastante evidente. Uma criança aprende a andar, a falar, a brincar de novas formas, a compreender regras, a se relacionar com outras pessoas.
Na vida adulta, porém, essas transformações podem se tornar menos visíveis. Não deixamos de nos desenvolver porque crescemos.
As crises passam a envolver, também, transformações no pensamento e na maneira como atribuímos significado à nossa própria experiência.
Quando aquilo que funcionava deixa de funcionar
Imagine uma pessoa que passou anos acreditando que precisava dar conta de tudo sozinha.
Essa maneira de pensar pode ter sido construída ao longo de sua história e, durante muito tempo, pode inclusive ter sido funcional. Ela aprendeu a resolver problemas, assumir responsabilidades e não depender dos outros.
Até que, em determinado momento, as condições de sua vida mudam. Talvez uma nova responsabilidade apareça. Um relacionamento se transforme. O trabalho deixe de fazer sentido. A maternidade ou a paternidade traga novas exigências. Ou simplesmente surja a percepção de que a vida que vinha construindo já não corresponde àquilo que deseja.
Nesse momento, uma antiga forma de pensar pode começar a não dar conta da nova realidade.
E isso pode produzir desconforto, insegurança, contradições e sofrimento.Mas também pode produzir novas possibilidades.
A crise, nesse sentido, pode marcar justamente o momento em que uma forma anterior de relação com o mundo começa a se transformar.
Desenvolvimento também é transformação
Na perspectiva histórico-cultural, o desenvolvimento humano não pode ser compreendido apenas como o acúmulo de novas habilidades. Desenvolver-se também significa transformar as relações que estabelecemos com o mundo e com nós mesmos.
Por isso, algumas mudanças ao longo da vida podem ser acompanhadas por períodos de instabilidade. Aquilo que antes fazia sentido pode deixar de fazer. Uma maneira de agir que funcionava anteriormente pode não responder mais às novas condições de vida.
É como se o sujeito precisasse encontrar novas formas de existir diante de uma realidade que também se transformou. Isso nos ajuda a olhar para as crises de outra maneira.
Nem toda crise significa que algo está errado.
Às vezes, ela revela que algo está mudando.
E, assim como a criança precisa cair algumas vezes enquanto aprende a andar, nós também podemos atravessar períodos de desequilíbrio enquanto construímos novas formas de pensar, sentir e nos relacionar com a vida. O desenvolvimento humano não é uma linha reta.
Ele é feito também de rupturas, contradições, reorganizações e novas possibilidades.
Porque crescer não significa apenas adquirir algo novo. Às vezes, significa deixar de funcionar da maneira que funcionavam antes para construir uma nova forma de estar no mundo.




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