"Tenho 25/30 e não sei se estou no caminho certo”
A crise dos 25/30: conectados o tempo todo e, ainda assim, faltando alguma coisa Você está conectado o tempo todo, mas ainda sente que está faltando alguma coisa?
Muita gente entre 25 e 35 anos chega ao consultório sem conseguir explicar exatamente o que está acontecendo. Tem trabalho, amigos, muitas vezes um relacionamento e, mesmo assim, se pergunta por que ainda se sente em falta. Nada de errado acontecendo. Nenhum motivo claro para reclamar. Mas, quando o dia acaba e o celular finalmente desliga, fica uma sensação de vazio. De que a vida está passando meio ao lado.
A chamada crise dos 25/30 talvez tenha menos a ver com a idade em si e mais com aquilo que começa a não funcionar da mesma maneira dentro de nós. Existe, nessa fase, uma espécie de encontro entre aquilo que imaginávamos que seríamos e aquilo que efetivamente nos tornamos. E nem sempre essa distância é pequena.
Existe um roteiro para essa fase da vida
Existe um roteiro implícito sobre o que essa fase da vida deveria conter: estabilidade profissional, autonomia financeira, uma relação estruturada, alguma forma visível de conquista. Ninguém enuncia esse roteiro em voz alta, mas todo mundo parece conhecê-lo.
Esse roteiro não nasce dentro da pessoa. Desde muito cedo, vamos construindo imagens sobre o que significa ser bem-sucedido, ter uma vida boa, ser adulto, estar bem na vida. Parte dessas imagens vem da família, da escola, da cultura e dos vínculos que estabelecemos. Também vem daquilo que foi valorizado e daquilo que foi silenciado ao longo do caminho.
A gente constrói uma imagem daquilo que precisaria ser para ser aceito e passa anos tentando corresponder a ela. Hoje, essas imagens também chegam o tempo inteiro pelas telas.
Quando a vida dos outros se torna referência para a nossa
A vida dos outros está constantemente diante de nós. Não vemos apenas o que as pessoas fazem. Vemos onde estão, o que conquistaram, com quem estão, como trabalham, como se apresentam, o que compram e para onde viajam. E, pouco a pouco, essas vidas passam a funcionar como referências para avaliarmos a nossa própria. É curioso porque nunca estivemos tão conectados ao que acontece fora de nós e, talvez, nunca tenha sido tão difícil perceber o que acontece dentro. O ponto não é o conteúdo em si. É que ele ocupa espaço interno. Escutar as próprias necessidades exige um tipo de silêncio que ficou raro. Exige tolerar o tédio, o vazio momentâneo e a ausência de estímulo.
É justamente nesse espaço que o pensamento próprio costuma emergir. Quando ele é preenchido continuamente, a pessoa pode perder acesso a algo bastante básico: a percepção do que ela mesma sente e quer.
Ter possibilidades não significa saber o que deseja
Temos acesso a inúmeras possibilidades, mas isso não significa necessariamente que saibamos o que desejamos. Porque desejar não é simplesmente escolher entre as opções disponíveis. Muitas vezes, precisamos primeiro conseguir reconhecer o que, naquela multiplicidade de caminhos, realmente nos diz respeito. É comum que alguém chegue à terapia dizendo não saber o que quer.
Na maior parte das vezes, não se trata de ausência de desejo. Trata-se de falta de condições para escutá-lo. E é aí que pode aparecer uma experiência bastante angustiante: a sensação de estar ficando para trás. Eu deveria estar mais longe. Eu já deveria ter conseguido. Todo mundo parece estar avançando. Mas avançando em direção a quê?
Essa pergunta é importante porque existe uma diferença entre perseguir aquilo que desejamos e perseguir aquilo que aprendemos a desejar. Nem sempre estamos buscando uma vida que escolhemos. Às vezes, estamos tentando alcançar uma determinada imagem de vida porque ela nos oferece a sensação de que, quando finalmente chegarmos lá, estaremos suficientemente reconhecidos, seguros ou satisfeitos. E quando a conquista não preenche?
Talvez seja justamente por isso que algumas conquistas não produzam a satisfação que imaginávamos. Conseguimos aquilo que queríamos e, ainda assim, alguma coisa permanece faltando. Essa falta pode ser difícil de suportar, principalmente em uma época em que existe uma oferta permanente de respostas para ela. Se estou insatisfeito, existe um curso. Se estou sozinho, existe um aplicativo. Se não gosto de quem sou, existe uma nova versão de mim para construir. Se não estou produzindo o suficiente, existe mais uma estratégia para otimizar a minha rotina.
Estamos constantemente recebendo respostas antes mesmo de conseguirmos formular a pergunta. E talvez seja necessário algum espaço para perguntar não apenas o que está faltando, mas o que eu estou tentando encontrar. Estar conectado não significa estar em relação consigo mesmo Estar ocupado é mensurável. Aparece na agenda, na produtividade, na sensação de estar dando conta. É também socialmente premiado, o que torna esse estado ainda mais difícil de questionar.
Mas estar ocupado não é necessariamente estar implicado na própria vida. Estar conectado não é necessariamente estar em relação consigo mesmo. E estar realizando coisas não significa, por si só, estar encontrando sentido nelas. É possível manter uma vida inteira em funcionamento e, ainda assim, sentir que ela acontece do lado de fora.
Quando algumas certezas começam a ser questionadas
Por isso, a chamada crise dos 25 ou 30 pode ser compreendida também como um momento em que determinadas certezas começam a ser questionadas. O problema pode não ser simplesmente ainda não ter chegado a algum lugar. Pode ser começar a desconfiar de que esse lugar talvez nunca tenha sido exatamente seu. E essa percepção incomoda. Porque questionar uma escolha significa, muitas vezes, também questionar as expectativas que sustentaram essa escolha. Significa olhar para aquilo que recebemos do outro, para aquilo que incorporamos como ideal, e tentar perceber o que, no meio de tudo isso, podemos reconhecer como desejo próprio. Talvez amadurecer tenha menos relação com finalmente ter todas as respostas e mais com poder sustentar algumas perguntas.
O que, de fato, tem valor para mim?
O que eu quero quando não estou tentando corresponder a uma expectativa? Estou vivendo o que faz sentido para mim ou estou acompanhando o que parece dar certo para os outros?
Essas perguntas são desconfortáveis. Elas não têm resposta imediata — e não deveriam ter. O valor delas está em serem sustentadas por algum tempo, não em serem resolvidas rapidamente.
A crise também pode abrir espaço para novas perguntas
O incômodo que aparece nessa fase da vida geralmente não indica que algo deu errado. Ele indica que algo começou a ser questionado: as escolhas feitas sem que houvesse escolha real, as expectativas herdadas e assumidas como próprias, os sentidos construídos ao longo do caminho e nunca revistos. É um momento fértil, ainda que não seja confortável. A terapia não oferece respostas prontas para essas questões. O que ela oferece é um espaço onde essas perguntas podem finalmente ser feitas com calma, e onde é possível descobrir quais delas são, de fato, suas




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